Solidão: a presença da ausência

11/03/2013 21:29

 

Solidão: a presença da ausência

19.02.2013

.Serviços como o CVV e o Pravida oferecem atendimento terapêutico gratuito para a população

Alceu Valença canta que a solidão "é fera, a solidão devora. E faz nossos relógios caminharem lentos causando um descompasso no meu coração". Escondida no silêncio, no distanciamento dos amigos e familiares, a solidão é um dos sentimentos mais comuns da modernidade. Sua definição não significa estar só no mundo, mas a falta, a ausência, o vazio.

Diante da escassez de locais públicos (como praças) que favorecem a socialização, as pessoas se ressentem pela ausência de vínculos, do viver em coletividade. Tal condição potencializa a solidão e a desesperança FOTO: FABIANE DE PAULA

A solidão pode estar relacionada à predisposição genética, assim como aos fatores desencadeados ao longo da vida e que a intensificam, a exemplo de traumas ou decepções. Ao contrário da solidão, na qual o indivíduo sente a ausência de uma pessoa e gostaria de estar acompanhado, a solitude é uma escolha voluntária por estar durante um determinado momento sozinho, sendo acompanhado por uma sensação de presença de si mesmo. A solitude significa ficar bem consigo e trata-se, portanto, de um estado emocional positivo.

Vínculos frágeis

Segundo Elaine Lilli, terapeuta e educadora psicossocial do Instituto União de Desenvolvimento Integral, São Paulo, quando estes fatores acontecem, a pessoa tende a buscar uma postura solitária no meio em que vive. E o que inicialmente poderia ser um refúgio, uma proteção, torna-se uma armadilha. Isso porque a solidão pode desencadear depressão, uma das causas para uma possível tentativa de suicídio.

A atual relação estabelecida pelas pessoas mudou, afirma Fábio Gomes de Matos, Doutor em Psiquiatria pela Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, e coordenador do Projeto de Apoio à Vida (Pravida) da Universidade Federal do Ceará (UFC). Antes, duas pessoas tinham a capacidade de manter uma convivência sem a necessidade de firmar um interesse. No entanto, as relações atuais tornaram-se triangulares. "Nós usualmente não temos uma relação social sem estabelecer um objetivo, pois sempre existe alguma coisa intermediando. Você interage porque existe algo que motiva esta interação", explica o psiquiatra.

Fábio Gomes de Matos revela que o processo de urbanização das metrópoles tende a influenciar no desencadeamento da solidão. "Fortaleza é uma cidade descentrada. Ela é comparada às grandes capitais, em que é no Centro onde estão localizados os principais prédios públicos e as praças em volta favorecem à socialização das pessoas e o sentido de coletividade. O poder público abandonou o Centro. Não existem mais praças, e isso faz surgir uma sociedade que não estimula a vida compartilhada e o convívio em sociedade".

A condição da estrutura urbana de Fortaleza e a influência que esta tem na solidão, conforme Matos, são fáceis de serem comprovadas: a Capital ocupa hoje a quarta posição no índice de suicídio, representando um aumento de 130% nos últimos 10 anos. Este dado apresenta uma relação direta com a solidão. "Tudo isso resulta das doenças dos D´s: a desesperança, o desamparo à rede social, o desânimo à energia vital, ocasionando a depressão, que representa o desinteresse pela vida", explica.

Escuta necessária

Diante dessa realidade, Fortaleza conta, hoje, com alguns serviços gratuitos para as pessoas em solidão e, consequentemente, necessitam de assistência terapêutica. Criado em 1986, o Centro de Valorização da Vida (CVV) é composto por voluntários que realizam atendimento por telefone, uma média de 1.200 por mês.

Gilmaise Mendes, coordenadora regional do CVV em Fortaleza, explica que existir alguém disponível para escutar o outro representa um benefício concreto. "A maioria queixa-se de solidão. Mas ligam também pessoas que estão felizes e não têm com quem partilhar a alegria das conquistas".

O grande número de pacientes com histórico de tentativa de suicídio encaminhado ao Ambulatório de Saúde Mental do Hospital Universitário Walter Cantídio da UFC resultou na criação do Projeto de Apoio à Vida (Pravida), em 2004. O atendimento é presencial. O paciente é acompanhado por três meses ou até ter alcançado quadro clínico favorável e possa ser liberado. Segundo o psiquiatra Fábio Gomes de Matos, a intenção é "criar várias unidades do Pravida em Fortaleza e, com isso, uma espécie de selo verde para a vida".

Serviços Gratuitos

Centro de Valorização da Vida

Atendimento 24 horas (ligar 141)
(85) 3257.1084
fortaleza@cvv.org.br 

Projeto de Apoio à Vida

Hospital das Clínicas - Unidade de Saúde Mental
Rua Capitão Francisco Pedro, 1290 - Rodolfo Teófilo
(85) 3366.8149
pravidaufc@webnode.com.br 

MAURÍCIO VIEIRA
ESPECIAL PARA O VIDA 
Fonte:  Portal do Diário do Nordeste.
In: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1234054